A importância das cores na Arquitectura

A importância das cores na Arquitectura

Existem muitas pesquisas sobre como as cores podem afectar o nosso humor, mas ainda é difícil estabelecer padrões para determinados comportamentos frente a diferentes tonalidades. O que podemos afirmar é que a escolha de uma cor para uma casa, de facto, reflecte a personalidade do seu proprietário, o que atribui ao ambiente uma certa identidade e particularidade. As possibilidades de suportes para a aplicação das cores numa residência são muitas e vão além da usual pintura de paredes, sendo possível encontrá-la em elementos estruturais, esquadrias, brises, painéis etc. Somando esse factor às diferentes possibilidades de composição com o mobiliário e elementos construtivos, um mesmo espaço tem o potencial de assumir diferentes ambientes. Selecionamos aqui dois projectos de residências brasileiras com diferentes usos da cor que podem servir de inspiração para ir, além das usuais cores neutras:

Casa do Boi

Goiana, Brasil 477.0 m2

A residência foi batizada como “Casa do Boi” por causa do painel de azulejos criado por Leo Romano. Localizada num condomínio em Goiânia, a casa é cercada por um vale. Por isso mesmo, sua arquitectura é concebida de modo a estreitar a relação do homem com natureza. Os clientes são um casal de empresários do ramo da moda com duas filhas já adultas. Eles pediram uma casa que tivesse um traço autoral, mas que se integrasse no terreno sem agredir a natureza existente. Outro ponto importante era garantir uma certa privacidade em relação aos outros lotes. A fachada principal é marcada por uma sobreposição de dois volumes. No piso superior encontram-se os quartos, no piso inforior estão as áreas sociais, de serviço e lazer da casa. A planta desenvolve-se livremente, contemplando os espaços da cozinha, salas e varanda, que se voltam para a piscina e lago.O conceito de integração de espaços une-se à usabilidade e liberdade. Móveis brasileiros pontuam o ambiente, respeitando uma paleta amadeirada. Com poucos traços, Leo exercita a poética contemporânea de que tanto gosta. Agrega os valores plásticos apreendidos ao longo de sua trajetória. Marca um tempo. Faz de sua arquitectura, um caminho para a felicidade.

 

Os azulejos da fachada foram uma oportunidade de homenagear Athos Bulcão. Leo Romano se inspirou nos painéis do artista para criar as peças que compõe esta obra. O cliente queria algo exclusivo, então, Leo partiu do desenho de um boi estilizado que é a marca de seu escritório de arquitectura e desconstruiu a sua forma para que a imagem original fosse diluída no conjunto. Todos ficaram satisfeitos com o resultado. 

 

A composição dos ambientes foi repleta de móveis brasileiros. Na sala de estar, destaque para as poltronas Mole e Oscar de Sérgio Rodrigues, além das banquetas Costureiras de Lina Bo Bardi. A escada escultórica vermelha é de Jader Almeida. Na sala de jantar aparecem as cadeiras Pantosh, da Latoog design. Na varanda, a peça principal é a poltrona Astúrias, de Carlos Mota. Um tapete Aubusson marca a área social. As obras de arte são de artistas goianos de expressão. Destaque para os painéis do artista Pitágoras, que conferem cor aos ambientes de estar e jantar.

 

Casa Txai

Itacaré, Brasil – 640.0 m2

 A Casa Txai funde elementos das coloridas casas vernaculares baianas com linhas precisas da arquitectura moderna brasileira. Localizada de frente para uma belíssima praia no município de Itacaré, no nordeste brasileiro o terreno da casa sobe 13 metros a cima do nível do mar. Para evitar uma excessiva verticalização e, mesmo assim, acomodar todo o programa, a casa repousou em dois níveis sem sobreposição dos pavimentos. Essa solução acabou por construir uma nova configuração para o terreno, como uma segunda natureza, que recompõe a topografia original, agora com a casa assentada.

No andar inferior, localiza-se a sala, com uma grande varanda, onde todos os vidros e vedações podem ser completamente recolhidos. A sala torna-se num  espaço aberto, junto a essa área social fica a cozinha, voltada para a sala
de jantar e contida dentro de um volume de madeira que comporta também uma pequena área de serviços e uma casa de banho social.

Em frente à sala-varanda, repousa uma piscina com fundo infinito e um solário com espreguiçadeiras. O sistema estrutural foi modulado em vãos de 9,70m por 6,30m, num racional sistema dominó. Sobre essa cobertura do primeiro andar, fica um deck de madeira descoberto, e quartos. 

Não há qualquer conexão interna entre o pavimento da sala e da cozinha com os quartos. Os percursos internos da casa, assim, são sempre feitos externamente, usando o jardim como passagem. Os moradores experimentam as condições climáticas ao transitarem entre interior e exterior.

 

 

As casas de banho prolongam-se para fora do telhado e são totalmente abertos para o exterior, tendo os seus jardins individuais definidos por muros, como pátios. As portas da frente dos quartos dão para uma generosa varanda de 2,5m de largura onde ficam penduradas redes, presas no próprio forro feito com madeira reciclada. As portas de muxarabis,  elemento treliçado de madeira, tradicional da arquitectura moderna e colonial brasileira, sombreiam o interior dos quartos, deixando passar a brisa; podem também ser inteiramente abertas para total controle de luz no interior.

Os materiais usados na casa são todos locais. Privilegiou-se também acabamentos brutos, que envelhecem bem no agressivo ambiente litoral tropical. No caso dos volumes, uma paleta de cor inspirada nas casas locais, a arquitectura procurou cores vivas e puras que, aplicadas sobre a madeira dos muxarabis, contribui para a durabilidade do material ao criar uma camada espessa de proteção contra maresia.

A Casa Txai oferece uma radical experiência de integração entre interior e exterior.